A Limpeza de Rosa Branca


Naquela manhã de céu limpo e ar leve devido à chuva torrencial da noite anterior, ainda pude perceber lá pros lados do poente, algumas formações escuras e espessas na linha do horizonte. Com o sol ainda escondido, caminhei até o quintal para tomar tenência dos primeiros movimentos da vida na roça. Montado em seu banquinho mocho, Adelino, filho mais velho de Chico da Mata, tirava o leite fazendo espuma no balde esmaltado. Enquanto isso os gatos roçavam minhas pernas naquela pedição de comida e a cachorrada rolava pela grama tal qual brincadeira de criança.

Num demorou um “tim” e o cheiro intenso do café passado por Dona Linda me invadiu as narinas e fez a fome se acordar daquela rema letárgica derivada da longa noite de sono. Levei as mãos até a bica feita de bambu e o contato com a água gelada foi de arrepiar, mas fui em frente e com as mãos em concha lavei o rosto. Com o impacto se dei falta do fôlego, mas o despertar foi imediato. Já aceso, entrei na cozinha na buscação de um treco pra derrubar a fome e me acercar do aconchego do calor do fogão a lenha.

Foi quando dei reparo da figura esguia e discreta de uma senhora acompanhada de um garoto aparentando uns cinco anos de idade já aboletada na ponta da mesa em proseio íntimo com a dona da casa. Depois de um vigoroso “Bom dia!”, de um vaporoso aperto de mãos nas apresentações de praxe, fiquei sabendo que Dona Flor de Maio levava o filho Adão para tratamento das feridas que pocavam por seu corpo provocando pequenas pústulas de bordas avermelhadas. A estes sintomas acompanhava uma cafubiragem retada, que o menino distraído, levava a mão e carcava à unha suja sem dó, buscando aliviar a coceira. O resultado era uma criança emperebada por demais.

Dona Lindaura tava na fadiga de encaminhar alimentação pros trabalhadores que tavam no campo colhendo o milho junto com Chico, e num estupor virou-se prá mim e disse: __”Veja o que pode se dá a essa criança prá livrar ela dessas mazelas...” e assim dizendo se escafedeu no cerrado levando a matulagem da peãozada. Fiquei surpreso e feliz com a oportunidade de ajudar o garoto e dei de matutar sobre as opções existentes para casos como este. Correndo os olhos pelo quintal, se dei com uma leira de Rosa Branca (Rosa alba) caprichosamente cuidada por Dona Linda. Pronto! Tava ali a resposta e fui logo me encaminhando prá lá, seguido de perto pelo menino com cara de malino agarrado na saia da mãe.

A recomendação é tomar o chá das pétalas das flores todos os dias pela manhã ainda em jejum, num carecendo de adoçar, pois o gosto quase num tem valença, mas o resultado é uma depuração vigorosa. Orientei ainda pro garoto se afastar de comida remosa como o pequi e a manga. Dona Flor me agradeceu sem base, agarrou o braço do menino e sumiu no mundo.

Demorei semanas a dar retorno por ali, mas bastou entrar na vila que se dei com Dona Flor e o guri, dessa vez vestido numa cara lambida danada. Ela dispôs o sucesso da empreita, dizendo que “ele fico liso como uma garrafa em pocos dia e inté tá mais remansado”. Sem esticar muito a prosa, ela soltou um “Deus lhe pague” veemente e rumou célere ladeira acima. Encaminhei-me lentamente até o carro, agradecendo pela oportunidade de cuidar de maneira simples, pessoas também tão simples. Inté mais!

Parte deste texto foi copiado e adaptado para constar na prova de Português do Enem de 2017

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