A Semente do Bem



Já se passava da metade da manhã quando chegamos ao topo daquela serra de pedras que cercavam a região. A nossa frente se descortinou uma baixada recoberta por uma pastagem enfeitada por algumas árvores de maior porte. Chico da Mata cavalgava ao meu lado num animal fogoso por demais, e eu estava literalmente lutando para tentar acompanhar o ritmo da viagem em cima de uma mula boa de sela, mas de passos curtos. Do alto ele apontou para o meio da pastaria verdolenga e disse:

__Tá veno aquela mancha esbranquiçada lá naquele baxio? É nela que nóis vão! Daquela distância só consegui perceber que a tal mancha era uma árvore ponteada de algo que contrastava com o verde escuro de suas folhas. Concordei rapidamente com a cabeça para não esticar assunto e toquei minha mula em frente na esperança de que ele não disparasse na frente. Descemos a encosta até nos acercarmos da frondosa sombra de uma enorme Sucupira (Pterodon pubescens).

Fiquei um tempo hipnotizado pelo espetáculo de ouvir o vento cantar acompanhado pelo barulhar das centenas de sementes brancas que enfeitavam a copa da árvore. Folgamos as selas dos animais, deixando-os num amarrado frouxo de pastação e demos de catar sementes prá colocar dentro de um saco. Depois de praticamente catar tudo, Chico me olhou diretamente nos olhos e resmungou baixinho:

__Se viemos de muita lonjura. Carece de subir no pau e balangá a gaiada, senão nois corre o risco de inté perder a viagem... Não me restou alternativa, a não ser caçar um jeito mais fácil e seguro de obedecer a ordem recebida veladamente. Arrudiei a tal e me dei com uma galha mais baixa, no jeito de montar por riba e alcançar as partes mais altas. Usando de minhas modestas habilidades, consegui chegar ao topo e daí gostei muito da vista e da sensação. Dei de balangá e o chão aos poucos foi se cobrindo de sementes que ele diligentemente ia jogando dentro do saco.

Depois da tarefa cumprida, Chico se encostou no tronco da dita e tirou de seu alforje uma cuia com a tampa amarrada por um pano bem alvinho, que depois de aberto esparramou pelo ar um cheiro temperado de farofa. A reza de agradecimento foi rápida, e daí se seguiu uma carreira de colheradas despejadas no covo da mão levada diretamente a boca, na ânsia de aplacar a fome a tapar o oco da barriga. A caneca de café desentupia a farinha e num tardou deu-se um fastio de prazer e cansaço.

__Essa sementaria ainda vai curar muita gente de reumatismo, dorada na cacunda, na pá, na espinhela e inté dor de garganta. Isso é um remédio santo e nóis aqui tem dela de cum força que nem dá ligança. Fiquei pensando que a fartura invariavelmente traz consigo uma espécie de anestesia.

Depois disso passei a recolher mais informações sobre a ação da Sucupira e na prática pude comprovar sua excepcional capacidade de cuidar de praticamente todas as moléstias ósseas, como a artrite, bico de papagaio, hérnia de disco, contusões e demais atrocidades que acometem uma tanteira de gente. A receita chega a ser simplória, pois bastam 4 sementes de Sucupira, que deverão ser esmagadas e adicionadas em um litro de água fervente, num deixando ferver por mais de dois minutos. Faça isso ainda pela manhã e tome como se fosse água durante todo o dia, repetindo a operação por pelo menos quinze dias. Inté breve e boa sorte!

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