top of page
Posts Em Destaque

Minas Gerais e Orléans: Olhares Cruzados no Caminho de Saint-Hilaire (capítulo 5)



Miolo - MINAS GERAIS E ORLÉANS - 23 08 2021 - para web
.pdf
Download PDF • 35.41MB

Clique no ícone acima para baixar a versão completa do livro.



A serventia das plantas Vamos imaginar Auguste de Saint-Hilaire, lá pelos idos de 1817, em seu caminho por essas bandas de cá, saindo do antigo Arraial do Tijuco, até Conceição, passando pela Vila do Príncipe... parte do que hoje “batizamos” como Caminho Saint Hilaire. A paisagem vislumbrada por ele mudou muito. Afinal, já faz mais de 200 anos que o naturalista percorreu a região. Mas nem tudo mudou... Ainda há locais intactos e, porque não dizer, imaculados, com toda a sua exuberância natural. Uma belíssima paisagem de campos e cerrados rupestres onde plantas crescem em meio aos afloramentos rochosos. É certo que esses vegetais não são altos e frondosos como aqueles encontrados nas florestas tropicais. Apesar disso, as plantas dos ambientes rupestres apresentam uma beleza peculiar: flores coloridas, cascas grossas, galhos retorcidos, folhas espessas como couro, ou estreitas – para perderem menos água. Essas são adaptações desenvolvidas ao longo de centenas de milhares de anos para garantir melhor sobrevivência e sucesso nesse ambiente hostil. Sim, hostil. Há períodos prolongados de seca; o solo é pobre em nutrientes e pouco profundo para as raízes se desenvolverem; há muitos predadores que se alimentam de vegetais como fungos, bactérias e vírus; existe a ocorrência de fogo de origem natural devido a uma combinação de mato seco e raios atmosféricos...

As plantas desses ambientes hostis apresentam muitas adaptações para sobreviver e interagir com o entorno. Essas adaptações, que muitas vezes não são visíveis aos nossos olhos, incluem a produção de substâncias químicas especiais e muito específicas, de restrita distribuição na natureza. Algumas dessas substâncias podem ter sabor ou cheiro desagradável, para afastar os herbívoros ou serem tóxicas para parasitas e predadores. Outras protegem os tecidos vegetais da radiação solar, que causa danos à vida.

Há, ainda, substâncias que servem para atrair abelhas, outros insetos e animais polinizadores, que possuem importante função para reprodução de plantas, favorecendo a continuidade da espécie vegetal no espaço e no tempo. Substâncias que atraem animais normalmente são coloridas, se concentrando nas belas flores de vegetais dessas formações rupestres; outras têm cheiro que atraem certos agentes polinizadores e dispersores de frutos e sementes.

A Natureza vem desenvolvendo seus experimentos: as plantas produzem certas substâncias consideradas adaptativas ou favoráveis àquele ambiente e momento... E assim chegamos a uma vasta quimiodiversidade (diversidade química) que se traduz também em biodiversidade (diversidade de vida). Nessas bandas de cá, pelo Caminho Saint Hilaire, a biodiversidade e a quimiodiversidade da vegetação são imensas! O ser humano, que é parte desse ambiente, utiliza várias das plantas que contém tais substâncias químicas. A riqueza de conhecimento acumulada por populações indígenas, tradicionais e comunidades locais sobre o uso de plantas medicinais foi descrita por Saint-Hilaire e hoje é uma ferramenta de investigação científica, etnobotânica e etnofarmacológica. Ou seja, estudamos as plantas e as formas como elas são utilizadas pelo ser humano, como os chás, garrafadas e banhos, dentre outras formas de uso. Esses preparados com essa ou com aquela raiz ou folhas, ou cascas, ou frutos nos ajudam a suportar determinada dor ou a tratar uma infecção ou outras doenças e, ainda, prevenir outros males à saúde.

Neste capítulo, escolhemos algumas plantas medicinais que ocorrem entre Diamantina, Serro e Conceição do Mato Dentro, com as quais Saint-Hilaire teve contato no século XIX. Elas foram interlocutoras em uma primeira parte deste texto, na forma de um conto: “Tem plantas medicinais nos caminhos de Saint-Hilaire...”. No conto, o Auguste de Saint-Hilaire aparecerá como “Seu Augusto”, um jeito brasileiro e carinhoso de nomeá-lo. Voltamos ao passado e tentamos nos colocar no lugar desse ilustre naturalista. Buscamos retratar, por meio de muita imaginação e leitura de suas obras – seus diários de viagens, como ele conheceu e descreveu essas plantas nativas e seus usos medicinais tradicionais. Imaginamos que, para tal tarefa, ele teria contado com o apoio de gente daqui, como Nhô Chico, que o acompanhava na viagem. Na segunda parte, apresentamos as plantas medicinais citadas ao longo do conto, fornecendo informações de como Saint- Hilaire descreveu os seus usos pela população à época e dados científicos recentes sobre a ação dessas plantas como remédio. Por fim, é importante registrar que na abertura deste capítulo, utilizamos desenhos da obra “Plantas Usuais dos Brasileiros”, de Saint-Hilaire, escrita em 1824, traduzida para o português e publicada em 2009 no Brasil. As fotografias utilizadas neste capítulo foram gentilmente cedidas por Marcos Guião e Danielle Piuzana Mucida.

Tem plantas medicinais nos caminhos de Saint-Hilaire...

Marcos Guião

O sol já tava alto quando finalmente conseguimos dar saída do Arraial do Tijuco com nosso pequeno cortejo serpenteando por entre as ruas e vielas. As pedras arranjadas caoticamente no piso dificultavam o início daquela que seria uma das viagens mais marcantes de toda a minha existência.

A comitiva se compunha do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, seu criado Prégent, o muladeiro João Moreira, além do índio botocudo Firmiano. Eu, Nhô Chico, tava atendendo a um pedido do intendente Câmara, poderoso senhô destas terras de diamantes, pra conduzir em segurança o grupo no trecho do Arraial do Tijuco até Conceição, passando pela Vila do Príncipe, que distava pouco mais de 10 léguas.

Essa era a melhor oportunidade pra prosear com o francês afamado de ser conhecedor da natureza, já que por vezes sem conta gente homem e mulher me solicitavam remédios do mato pra uma tanteira de padecimentos.

Os animais da tropa foram escolhidos a dedo pelo intendente, e aquela égua baia de passo certeiro e macio acomodava seu “Augusto” por demais. Outros dois cavalos de passo mais pesado levavam Prégent e Firmiano, eu montava a mula Formosa e mais duas mulas de carga completavam a tropa carregando a tralha de viagem, composta principalmente das broacas que acomodavam as coletas realizadas no caminho. O João ia a pé fechando o cortejo e zelando dos animais. O francês num era alto, mas tinha uma elegância natural pra se manter em cima do animal; parecia que tava num desfile. Mesmo sob aquele sol escaldante ele num dava nenhum sinal de esmorecimento, e debaixo do chapelão nada escapava ao seu olhar de minúcias protegido por grossas lentes. Era só topar com uma florzinha atoinha ou um besouro avoando, que parava-se tudo, dando início a fadiga de amarrar os animais, cavucar uma planta aqui, dá buscação de um bichinho acolá, sempre na faina de fazer os amarrados das amostras recolhidas sem descaprichar com nadica de nada.

Ele gostava de conversar e foi só dar início na prosa, falando de meu interesse nas medicinais, que ele logo comentou que “em uma região onde não há médico, quase todos os homens idosos são botânicos e naturalistas”. Daí em diante me senti no inteiro e à vontade pra palpitar, apontando as plantas que conhecia, sempre me preparando para depois responder uma infinidade de perguntas, tudo devidamente anotado na sua inseparável caderneta.

Na saída do Arraial do Tijuco ainda tinha um bocado de gente indo e voltando das áreas de serviço esparramadas pela região. A derrubada das matas para retirada de lenha, o fogo colocado no constante, além da proximidade com aquela montoeira de gente, associado ao grande trânsito de animais, arruinou uma grande área do entorno do arraial e aquilo aos poucos foi mudando a paisagem. Daí ele explicou que quando se dá uma bulida na natureza daquele tamanho, isso provoca o brotamento de algumas espécies que sempre mostram que o lugar tá muito mexido, surgindo daí plantas desbravadeiras, aquelas que dão conta de dar saída em lugar desfavorável, abrindo caminho para outras que carecem de um terreno com mais recursos.

E foi justo nessa área que topamos com a Lobeira (Solanum lycocarpum), uma arvoreta que aparenta fragilidade, de folhas disfarçadas por uma penugem que lhe dá uma coloração esbranquiçada.

As flores são pontiadas aqui e acolá, enfeitando sua copa de um azul profundo, e os frutos grandes como um abacate, tamém são recobertos dessa penugem. Dei sentido de que os frutos são mais utilizados na medicina caseira e na tentativa de coletar um deles a coisa ficou feia, pois seus recatados espinhos dispersos pelas folhas e galhos invariavelmente se prendem na roupa do vivente e só a poder de muito jeito ou safanão o cabra se livra do agarramento despropositado.

Depois de vencer essa canseira e de ele coletar suas amostras, deu-se de perguntar seus usos. Expliquei que os frutos mais maduros são ralados e a massa apurada é levada prum cozimento rápido e depois se junta a banha da capivara ou de porco. Essa pasta formada é um ótimo remédio pra aplicação em calcanhar rachado, sofrimento muito comum no período da seca naqueles que andam descalços ou de sandália. Os frutos aquecidos também têm aplicação diretamente sobre feridas, perebas e furúnculos. Me alembrei ainda que as entrecascas da lobeira podem ser raspadas e aplicadas no umbigo da bezerrada nova pra evitar inflamação.

Quando falei da possibilidade de uso do polvilho preparado com os frutos, aí a admiração se estampou em seu rosto e com os olhos arregalados soltou a primeira pergunta: “E com qual serventia?”. – A indicação é pra essa gente que tem o sangue doce, derivando a dificuldade em cicatrizar qualquer feridinha ou reclamação de dor e queimação no estômago. “E como se prepara este polvilho?”. – Bom, de premeiro tem de se colher os frutos ainda verdolengos, que devem ser ralados. Essa pasta apurada precisa ser lavada e a água leitosa obtida é reservada numa gamela. É bom deixar descansar sem bulir na vasilha, até que a água fique limpa por cima e no fundo se junte um porme bem fino. Em seguida tem de escorrer devagar a água, levando o polvilho depositado no fundo para secar direto no sol. Se forma aí tipo umas placas que devem ser quebradas para se obter um finíssimo porme acinzentado. Tá pronto seu polvilho.

“Tem outras partes da planta que são utilizadas?”. – As flores têm serventia no preparo de um bom xarope pro tratamento de tosse de catarro, resfriado e até gripe.

Eu tava inté gostando daquele proseio, e pra esticar um pouco disse que os frutos podem ser comidos de colherada ou então se fazer uma boa geleia. Com aqueles olhos interrogativos me encarando por riba dos óculos, nem precisou da pergunta que a receita já saiu inteirinha: vamos precisar de açúcar, limão e só vai prestar se os frutos tiverem maduros, senão o doce fica apertento. Tem de tirar a casca e as sementes do fruto e bota a polpa apurada com um tiquinho de água num tacho até levantar fervura. Daí é preciso passar numa peneira de palha fina, acrescentando para cada prato de massa metade de açúcar. Tem de misturar tudo e acrescentar meio copo de suco de limão e umas casquinhas pra dá um gostinho diferençado. Por fim volte tudo pro fogo mais uns vinte minutos ou até meia hora pra que ela fique pronta, lembrando que o paladar sempre é mais puxado pro azedinho. Foi assim que deu-se o início da nossa amizade na jornada até o pequeno arraial de Conceição. A partir daí num tive mais paz, pois a todo momento fui perguntado da serventia de tudo que é planta. O Seu Augusto era homem muito estucioso e fazer parceria com ele foi deveras um presente. Dando seguimento na andança, se demos com uma descida arrumada e lá de cima dava pra ver o Ribeirão do Inferno com suas águas escuras serpenteando por meio das pedras e alguns pequenos bancos de areia, com o serviço correndo solto nas berolas.

O risco de um trupico ou queda em terreno tão escôncio era grande e o cuidado maior tava focado no resguardo dos animais para que não escorregassem em meio ao trilho enlameado do sobe e desce dos mineradores e mercadores trazendo suas especiarias ao arraial. Esse trânsito intenso de animais deu uma travada no ritmo da jornada, pois tinha uma tanteira de mula que se empacavam e até dar convencimento aos animais de seguir viagem era um sufoco. Por isso tudo a travessia do Ribeirão era dos Infernos!

Aos poucos fomos vencendo o trecho e num tardou pra dar reparo que por ali grassava dum lado e doutro da estrada uma tanteira de Arnica (Lychnophora sp.). Fiquei cismando essa coincidência do risco de uma queda e suas consequências, com aquele roçado imenso de uma planta que cura justamente o que o ladeirão travessado por uma montoeira de corguinhos podia provocar. Só podia ser providência divina. Dei ciência dessa cisma ao francês e ele ouviu calado, mas num deu sinal de dar prestígio a nossa Arnica. Talvez seja derivado de que por lá, nas terras dele, devesse ter outra planta que também tivesse esse nome com o mesmo serventuá, mas bem deferente no jeito de se apresentar. Engano meu, pois num delatou minutos e ele deu ponto de coletar amostra pra juntar nos seus guardados. Enquanto ele e seu ajudante Prégent se davam ao trabalho de cortar, dispor e embalar, destrambelhei a falar sobre as serventias dessa Arnica, que por ali muitos usavam nos casos de machucão, torção ou contusão. Mal acabei de falar e o muladeiro João se animou pra dar o testemunho de ter tomado um coice bem no meio dos peito há alguns meses atrás, e o que lhe valeu por demais na recuperação do machucão foram os banhos e compressas preparadas com a Arnica. Seu Augusto tirou a caderneta de anotações e danou- se a rabiscar um bocado lá dentro e ficamos por ali na espera pra seguir adiante. Paciência era palavra que ele vivia nos pormenores, com absoluta falta de açodamento. Afinal ele havia despencado lá dos estrangeiro pra chegar até aqui e fazer aquilo que tava fazendo. Então tinha de sê bem feito e assim ele fazia. Num tardou e a tropa rompeu adiante, agora topando um morro arrumado pela frente. Aquilo deu canseira, pois pra num lesar com os bichos, apeamos e fomos puxando os animais morro acima, pulando de pedra em pedra prá num escorregar no Barro Amarelo, lugar que a lama garrava no fundo da bota e era difícil de sair com ela ainda no pé. Quando finalmente chegamos no tope daquele absurdo de morração que o francês teimava em chamar de “outeiro”, se demos num campo fechado de Macela do Campo (Achyrocline satureioides) e daí o encantamento foi certeiro, Parte II: O Caminho Natural e Medicinal 97

bem no coração. Pra tudo que é lado de se olhar era Macela na flor, soltando seu perfume recatado e lavando nossos olhos, emprestando sua belezura dourada refletida pela luz do sol. De sua folhagem discreta de coloração verde esbranquiçado brotava a formosura da florada alourada que só se aloja nas gripas das grandes alturas das serras. Macela do Campo Em mais uma parada, atentei que a aparência ressecada das flores esconde o aroma doce que enche as narinas do vivente. Seu Augusto já tava de caderneta na mão me inquirindo sobre as serventias da Macela e de primeiro me alembrei de falar que suas flores são colocadas nos travesseiros carinhosamente preparados pra descansar a cabecinha dos recém-nascidos e tamém dos marmanjo. Essas mesmas flores que encantam os olhos, também ajudam quando o caso é de dor de qualquer qualidade, cuidando da gripe, daquele desconforto de comer um trem e ficar no enjoo, dando até estufamento da barriga. Mas como o gosto do chá puxa pro amargoso, aquilo dá ânimo e força pro doente. “Você usa ela pra mais alguma coisa?” Matutei um tiquim e me alembrei que já tinha visto gente lavando a cabeça da meninada infestada de piolho. Fica um perfume gostoso e dá bão resultado. Num pude deixar de contar prele que pra doença de mulher num tem igual. Chega ser tida como milagrosa, pois facilita as regras, diminui as cólicas e acalma os incômodos nesse período da vida da mulherada. Minha dona era o “cão chupando manga” de tão arretada que ficava no tempo das regras. A coisa lá ia de mal a pior, pois eu dormia com uma mulher e me acordava com outra. Só de olhá pra ela o mundo se acabava. Quem que guenta um trem desses? Foi quando soube desse serventuá da Macela e mesmo desconfiado apreparei um vinho com as flor. Ela tomou por uns três meses, tempo suficiente pra ir se dando desaparecimento daquela angústia, amiudando a nervosia, reavendo uma alegria que tava escondida. Hoje ela tá boazinha, conversadeira e eu mais ainda de num ter de lidar com aquele carrancismo mensal. Nos caminhos da estrada aos poucos foi se escasseando o povão que se amontoava pelas trilhas e demos de ficar mais tranquilos pra seguir adiante sem muito tumulto que sempre acompanha multidão. Num descampado que ladeava a trilha, Firmiano provocou um fogo e Seu Augusto saiu de lado prá se agarrar com suas anotações. Com o fogo já lavorando, o café saiu ligeiro e tirei de meu embornal a farinha de milho e a rapadura, misturamos tudo pra aprontar a Jacuba. A alegria vem das tripas, né mesmo? Com a barriga cheia, nosso pequeno grupo deu foi risada com a contação de causos, mas de repentemente arribei os olhos pro céu, e com o tempo se fechando nos levantamos no susto e tocamos em frente buscando evitar uma chuvada no lombo.

Já montados nos animais, logo adiante se mostrou um capão de mato descendo pelo espigão, dando sentido de que ali corria uma aguada. Desgarrei da tropa e ainda de longe dei de ouvir a verteção caprichosa duma água fria brotada naqueles altos. Depois de matar a sede, lavei o rosto e dei atenção de que logo abaixo a mata se abria para dar lugar a um pequeno banhado, onde uma imensa quantidade de Carqueja (Baccharis trimera) tomava conta. Achei que deveria dar sentido do achado ao Seu Augusto e de longe abanei as mãos de modo como que pedindo socorro. Ele era um cabra dos mais reparoso que já conheci, e num tardou um tim já se acercou inquirindo qual era a planta, onde tava, sua valença e por aí se foi.

Aquilo já tava virando festa e daí quem se deu de ficar em calma fui eu. Me assentei num lajedo e dei começo na reparação do jeitão diferençado da Carqueja, pois ela é só uma varinha arrodeada por três asinhas e seu lugar de achado é ali, nos recantos brejosos. Variei um pouco e disse que a água é companheira do sangue e pro isso a Carqueja tem a força de ser depurativa. O francês me cortou a fala e perguntou de chofre: “O que significa ‘depurativo’”? – Sabe o que é não? Ara! – Ele abanou a cabeça e daí expliquei que ela tem a qualidade de limpar o sangue, limpando também todo o corpo do vivente pro dentro. Igualinho as águas de onde ela brota fazem com nosso corpo quando ele tá sujo por fora. São essas coisas que Deus escreve na natureza e a gente tem de lê ali no simples...

Dei seguimento na sua serventia já agora com os animais, quando no constante ela era indicada se acontecia de eles apresentar aquele barrigão inchado e nervosia derivado de ventosidade. Aquilo se acabava logo depois de despejar o sumo espremido pela goela deles e daí pouco tempo se dava início na soltação dos ventos. Pois esse mesmo sumo tomado em antes do almoço tanto em gente homem quanto em gente mulher, provoca uma fome medonha, mas tamém aliveia os empachos provocado quando a comida é das mais pesada, dano disposição e energia pro cabra.

Já vi gente tomando Carqueja prum treco e dar conserto em outro. É o caso de dona Mudesta de seu Leocádio, que tava usando o chá dela pra extinguir uma dorada nas dobra da munheca e daí rompeu-se uma febre nascida de uma dor na garganta. Ela não largou mão da Carqueja e num demorou um tim pra lhe romper um suadô desabusado e a febre se foi. Ele levantou os olhos das anotações e perguntou mais uma vez: “Você tem conhecimento de mais algum uso?” – Ara!

Com essa perguntação destampada, a gente fica até avexado, pois num se podia escapar nadica que o francês tava de olho e ouvido caçando relato. Foi daí que me alembrei que uma vez apareceu lá em casa uma mãe carregando um fiapinho dum menino na maior dificulidade de respirar, com aquela fadiga da faltação de ar e mãe no desespero, só garrada na casaca de Jesus. Pois tive um lampejo e naquela precisão dei-lhe um banho de Carqueja e uns golinho da danada, que ele refugava de ruim que é, mas boa de remédio sem base. Num tim ele foi se aprumando, deu de urinar com gosto e pediu comida.

Aquilo foi mesmo que um milagre vindo das orações da mãe e inté hoje ela me agrava. Dando um arremate na tal da carqueja, ela ainda se presta na expulsão das bichas moradeiras dos intestinos da meninada que apresenta aquele barrigão despropositado, transitando a massa intestinal. Pois foi assim que se arresumiu nossa prosa e dei saída da roda pra servir minha mula de água e afrouxar a sela enquanto ele acabava de fazer seus registros.

O francês era um homem estudado deveras, e quando falava mais no devagar entendia-se tudo, mas quando o falatório derivava pro seu ajudante, juntava-se o desarranjo da língua estrangeira com o carrancismo absurdo do Prégent e aquilo virava um vixe. Mas isso não impedia de nossa marcha seguir adiante no leve e sem tréguas. Lá de cima daqueles altos se via uma imensidão de campos salpicados de cores miúdas num sortimento infinito de flores brotadas em meio ao cascalho arenoso e esbranquiçado que sustentava nossos passos. Várias vezes se deu um estravancamento pra buscação das plantas floridas que cruzavam o caminho e dei conselho da gente se apurar no trote, pois o dia já ia pra se acabar e com ele nossa esperança de chegar num canto mais agasalhadeiro pra passar a noite. Seu Augusto ouviu, mas refugou, dizendo que a região era das mais belas e observar a natureza, coletar as plantas e os seus insetos, além de travar as prosas eram mais importantes que uma boa cama...

Eu cá nas minhas caraminholagens fiquei cismando de onde saía tanta opinião pra num se render a nada que fosse desafiação encontrada pelos caminhos. Ladeando sua égua durante a subida do ribeirão, ele havia me contado algumas de suas aventuras em antes de seguir esse trecho e realmente fiquei no espanto e no respeito de ver gente tão fina vinda dos estrangeiros se meter a caminhar naquelas lonjuras debaixo de tanto espicaçamento largado pelos caminhos. Acostumado que tava nas andanças pelo sertão, sempre levava comigo uma matulagem que desse socorro quando a fome brotava nas tripas. Além disso, havia sido alertado pelo intendente que deveria cuidar no capricho de Seu Augusto, pois o homem só tinha cabeça pra ficar na espiação do entorno. No embornal tava o feijão, o toucinho, a farinha, a carne seca, a rapadura e o inhame prontinhos pra saltar pra fora e fazer o de comer. E com o adiantado das horas deu-se uma fome mais avultada e daí sugeri de se fazer uma janta ainda no meio da tarde e todos aprovaram sem ressalva.

Enquanto João soltava os animais por ali mais na larga e o Prégent garrado no apreparo das plantas pra colocar nas bruacas, chamei Firmiano pra fazer o fogo, que rapidamente voltou a lavorar em meio a uma roda de pedras ajuntadas por ali mesmo. Ele era de pouca fala, manso e tranquilo, além de muito zeloso com os animais, mas era tamém bem esgabilado, comendo qualquer coisa e muito. Por isso a rapidez no apreparo do fogo, sabedô de que dentro da panela o feijão amasiado com o toucinho lá se ia dando ponto e levantando um cheiro. Ele voltou pra junto de Seu Augusto pra ajudar na catação das plantas e bichos, enquanto eu ficava por ali velando nosso arranjo.

Resolvi fazer uma quantidade maior pra criar uma sobra e economizar de novo cozimento mais adiante, e assim fiz. No tempo, chamei os companheiros e arrodeamos a panela que tava com o feijão no jeito já agregado com a carne seca e uma pitada de Pimenta de macaco (Xylopia aromatica) dando um gosto diferençado, que todos deram sentido. Seu Augusto logo quis saber o que era aquilo, mas dessa planta eu num tinha muita ciência de seu serventuá, ficando só mesmo nessa coisa do gostinho bão no ajeito do feijão e da carne. Pra num deixar esfriar a prosa, me alembrei que nalgumas comunidades tinha-se o costume de tomar o chá das folhas, da casca ou do fruto pra prevenção de inflamação ou quando a digestã dava emperro. Rastreada mesmo era sua madeira, que dá um pau liso e reto tal qual uma vela e na fazeção de telhado era muito perseguida.

Deixei a farinha livre pra cada qual se servir na fartura, mas dei sentido de que tanto o índio como o Prágent caíram de queixo com força em nosso ajantarado, e no final quase deram de lamber o fundo da panela. Ara! Eles acabaram por estorvar meu plano de guardar um bocado pra mais adiante, mas daí tirei a lição de fazer só um tanto que desse fim a fadiga da fome, sem sobrança. Cada qual guardou sua vasilha, desfiz a roda de comida levando os mantimentos pra dispor na mula e aos poucos demos seguimento ao trecho.

Mas num andemos nem meia légua e o ajudante francês Prégent deu ponto de se enjoar, provocando até quase se acabar na beira dum pequeno corguinho que cruzava o caminho. Ele tava amarelo que nem gema de ovo, botando pra fora o de comer do qual tinha se desagerado.

Seu Augusto se apreucupou e me olhou no fundo como que pedindo ajuda. Corri os olhos ao derredor e num vi muita coisa que desse reparo no estrago digestivo que ele tinha se feito, mas vi que Firmiano tava inteirinho e ele me chamou de lado pra dizer que aquele lugar ali era ponto de brotação de uma planta das boas pra resolver a moléstia de seu companheiro de pratada. Lépido, montou em seu animal e disparou por um descampado mais a frente. Segui ele no trote e num tardou um tim pra topar com a Quina de Remijo ou Quina da Serra (Remijia ferruginea) esparramada em pequenas touceiras, com suas varas apontando pro azul do céu. Tamém conhecia ela, só num tinha atinado que por ali era seu endereço. Rapidamente tiramos um bocado de varas com raiz e no apressamento de dar retorno. Já me ia indo, mas Firmiano deu trava nos arranco e me disse: “Se não tapar o buraco de onde tiramos a raiz, aquilo vai virar é a cova do doente”.

Fiquei no espanto do dizer, enquanto ele no ligeiro puxava o gorgulho pra tapar o estrago feito na terra. Isso deu atraso pouco e demos retorno no galope pra dar socorro ao carrancista, que tava se acabando. Com a caneca num fogo atoinha levantado nas pressas, demos lavação e separo nas cascas da raiz, que se apresentou num vermelho intenso. Dispus na água fervente aquilo bem picado e no ligeiro a água se tingiu de carmim, dando sentido de que o remédio tava no quase. Firmiano afirmou no seguro que o cabra “podia tá arrotando cachorro doido que essa Quina da serra dava jeito.” E na sequência saiu-se de lado, deixando o juízo de dar outros proveitos da Quina nas minhas mãos.

A cada movimento, Seu Augusto olhava com encantamento e gosto, e num tardou pra brotar as perguntas: “Essa num é uma planta que se usa pra combater febres?”. Depois de concordar, dei explicação de que pra essa vomitação estúrdia ela tamém era boa, mas que isso naturalmente não abortava sua serventia nas febres de qualquer qualidade. Ainda tinha sua prestação quando da parição, que a mulherada dava de sangrar e as avós aprontavam uma garrafada com aguardente de suas raízes meses antes do parto pra dar socorro às filhas durante o tempo de resguardo, que durava trinta dias se fosse menina mulher e quarenta dias se fosse menino homem. Num pude deixar de afamar suas pequenas flores que exalam um perfume divino, do qual por muitas vezes me senti envolvido no meio do mato e custei pra dar ciência de seu berço.

A conversa daí em diante se resvalou na atenção da gente num desagerar na hora da comida, pois as significâncias tavam ali esparramadas por riba do couro de boi estendido pra dar algum conforto ao nosso companheiro Prégent. Já com o chá no pronto, levei até ele uma canecada, que foi refugada no imediato. Ele era um cabra dos mais carrancista que já conheci e daí arresolvi falar grosso pra encaminhar o tratamento, senão ele poderia se arruinar por demais. Limpei a garganta e disse bem no sério: “Tome tenença seu moço, pois fique sabendo que a fé cura, mas a cisma mata! Não se aduvide do remédio tão bem apreparado pra tratamento de sua mazela”. Daí Seu Augusto entrou na prosa e falando no seu dizer estrangeiro, senti que ele foi severo. Num demorou um tim pra ele dar início na tomação de pequenas goladas da Quina, fazendo cara de refugo derivado do gosto dos mais margoso que se tem. Foi tamém nesse tempo que todos decidiram que nosso pouso deveria se dar por ali mesmo e João saiu mais Firmiano pra buscar local mais protegido e próprio pra deixar os animais mais na larga.

A manhã seguinte se apresentou com o horizonte carregado de nuvens e um vento frio soprando no cangote. Firmiano se levantou e ficou arrodeando o Prégent pra ter certeza que ele tava bem, o que se confirmou no logo e daí ele mostrou um largo sorriso de pureza e alegria.

Com o estômago no oco derivado do esvaziamento forçado da tardinha anterior, Prégent foi logo pedindo comida e aproveitei pra levar no cozimento um bocado do inhame que carregava comigo, pois aquilo bem cozidinho misturado com melado era um luxo, mas dei a ele regrado pra num ofender as entranhas novamente. Inconformado deu de reclamar demasiado e Seu Augusto foi duro outra vez, colocando pra ele a ciência de sua mania do para mais, que podia novamente dar motivo de travar o trabalho. Resmungando, saiu pra cuidar das broacas enquanto cada qual deu de ajuntar as tralhas dando seguimento no trecho. Conforme as horas andavam, o tempo foi se abrindo e num tardou pro sol se apresentar no esquentamento do dia.

Mais adiante dava pra ver uma fumaceira, alertando que um fogaréu tava dando cabo no mato seco, sabe-se lá com que propósito além do da destruição da natureza. Quando encostei minha mula à égua de Seu Augusto, ele tava arreparando o fogo colocado e me disse: “Diariamente árvores preciosas caem sem utilidade sob o machado do lavrador imprevidente. É provável que, no meio de tantos e repetidos incêndios, desapareça uma série de espécies de plantas úteis às artes e à medicina, e dentro de alguns anos essa Flora não será mais que um monumento histórico.”

Fiquei matutando aquilo pra num perder o sentido, já que aquele francês num abria a boca pra falar bobagem e quem sabe no futuro alguém ou inté os poderosos iam colocar tento nesse cuidado que a natureza requer. Demos uma boa volta pra num correr o risco de dar enfrentamento com as labaredas que subiam velocíssimas em direção aos céus, como que pedindo socorro. Nesse carecimento de sair da rota, entramos num campo recoberto de capim nativo e seguimos arrodeando uma morração até que se demos com uma pequena cascata descendo barulhenta, se fazendo riachinho de águas muito limpas num assento mais adiante. Apeamos dos animais e fui acompanhando Seu Augusto até o paredão da cascatinha pra beber de sua água fresca e cristalina.

Foi quando de repentemente ele estacou e danou-se a falar com o Prégent, que imediatamente deu retorno até os animais pra buscar seus apetrechos de coleta. Vendo meu interesse na sua lida, o francês me mostrou uma coisica de nada, uma plantinha vermelhinha que tava grudada no limo das pedras úmidas. Ele chamou aquilo de Drosera (Drosera communis) e nesse momento a coisa se virou, pois daí eu que dei de perguntar sobre aquela nadica miudíssima. Ouvi que nas terras dele lá no estrangeiro existem fazendas de criadores de ovelhas na intenção de se tirar a lã pra dar conta da grande friagem, e uma planta parecida com essa é muito maligna para esses animais. Se eles comerem dela podem até dar uma morridinha, causando prejuízos aos fazendeiros. Será que num tinha outro serventuá? Seu Augusto contou que uma gêmea com essa espécie venenosa dá tratamento de resfriados quando acompanhados de tosse acatarrada. A vida é mesmo um mistério e o Criador fala com nóis através da natureza, num é deveras? Tem horas que acredito que Ele fica só na brincação, fazendo um sol nascente dos mais lindos, apurando na luz de trevessa das nuvens do fim do dia, emprestando formosura nos campos com uma florada de coloração infinda, parecendo que cada árvore, cada arbusto, cada flor ou pássaro é uma ferramenta Dele dizer que tá ali, pertim. Inté planta que come carne... Aquela brincadeira era realmente um espanto.

Os dias foram se seguindo nesse ramerrão de subir e descer morro no lento, ajuntado com a catação de plantas e os escrevinhados sem fim. Tudo isso trespassado pela carranquice do Prégent, as risadas abertas do Firmiano e a caladice de João, que ficava só nos entorno dos acontecidos. No frequente Seu Augusto me convocava pra dar alguma explicação do serventuá de qualquer planta e nem sempre eu conseguia acudir a seu peditório. Por vez isso me deixava avexado, mas ele num dava sinal de se importar, chamando de novo, outra vez e sempre... Acabei por me acostumar e fui me habituando a dar mais tento nos detalhes que ele mostrava pacientemente quando de suas coletas.

No alto de uma chapada botei os olhos no Pau santo (Kielmeyera speciosa), uma arvoreta tapada de graciosas flores roseadas, pontiando aqui e acolá nas berolas do caminho. Em antes deu dar seguimento nas ideias, Seu Augusto me demandou no longe: “Ôoo, Nhô Chico! Conhece essa planta aqui?”. Daí fiquei matutando que algumas plantas que são aparentadas podem ter muita distinção na hora de se usar, pois uma pode ser remédio e a outra peçonhenta... Daí a importância da gente dar bem reparo em cada qual, pra não se usar errado.

Mas ele contou ainda que aquela era uma planta carnívora! Essa coisica milúscula come carne? Ara! Ele pacientemente me explicou que as gotinhas melosas colocadas nas pontinhas das folhinhas vermelhas grudavam os insetos que avoavam por ali. Daí ela dissolvia os bichinhos e se sustentava daquilo pra manter a vida. Fiquei deverasmente pasmo. Encaminhei a mula na direção dele pra atender ao chamado e ocê acredita era a mesma planta que eu tava dano atenção lá nas beiras da estrada? Daí já fui divulgando o Pau Santo, tamém chamada de Malva do campo, Folha santa ou ainda Rosa do Campo. No meu modesto entender, sua maior riqueza é a formosura, que encanta quem lhe dá reparo, com suas pétalas roseadas parecendo que foram torcidinhas de lado. Pois nóis aqui se usa dela só as folhas bem amassadinhas, assentadas na água prela soltar mesmo que uma baba, boa de ser usada quando a demanda é um corpo cansado, merecedor de alívio da fadiga que os caminhos impõe no vivente. Tamém presta nos casos de ferimento no corpo que tá carecendo de cuidado e já vi gente dispondo dela num apreparado de xarope, mas confesso que tenho suspeita desse uso...

Seu Augusto balangava a cabeça dando sentido de que tudo que eu dizia era importante. Me sentia como um soberano da cura, pois afinal ele era um caboclo zeloso nesse trabalho com as plantas e na anotação de tudo que era merecedor de apontamento. Um de nossos pousos se deu na Aldeia dos Borbas, onde a afamação do francês chegou em antes da gente, e daí fomos tratados na maior das importâncias. Aproveitamos pra descansar uns dias, mas aquele arrepio que ele tinha de num se sossegar no nunca, lhe fez me convocar pra dar um revolteio nos entorno da propriedade no dia seguinte de nossa chegada ainda bem no berço da manhã.

Seguimos por uma trilha estreita que saía por detrás da casa donde távamos instalados e logo abaixo se demos num riacho, do qual fomos ladeando até dar ponto de trespassar em direção a uma morração de pedra bem a frente. O capim nativo que dominava aquelas paragens ainda tava carregado do orvalho matutino, deixando minha calça pesada derivado do encharcamento do joelho pra baixo. Quando sucedeu a saída num limpo mais arenoso, distingui uma touceira de Lobo-lobô (Conohoria lobolobo) e dei alarme do achado. Seu Augusto só me olhou arregalando um pouco os olhos destacados por riba das lentes e entendi que tinha de dar a ficha da tal. Na verdade eu num tava garrado na vaidade de ficar falando de planta, mas tava sim na intenção de dar um adjutório pra cozinheira da aldeia no apreparo de uma galinha pro almoço. Daí ele me perguntou: “Como assim?”.

– Por aqui nós tiramos as varas de Lobo-lobô, despelamos as folhas e raspamos a casquinha que fica no entorno das varinhas e já usamos direto nos apreparados. Tamém se pode levar pra secar no sol, pois a casca é bem fininha e se seca no ligeiro, mas ainda carece de levar no pilão e pisar até dar ponto de porme.

Ele continuava me olhando com cara de interrogação e expliquei que o porme seria colocado no caldo da galinha, pra dar grossura. Aquilo adensava sem se intrometer na gustação e nem no tempero. Ele se abriu num sorriso e a pergunta inevitável brotou: “Tem mais algum uso na saúde?”. Aquela era uma planta mais garrada no ajeito da comida e nunca tive palpite de sua valença na farmácia. Eu era sabedô que a maioria do povo e da pova tirava sua mantença mais pra encheção do bucho, pois o de comer num tinha feição de acudir a saúde. Ele deu de me interrogar sobre esses palpites e discorreu uma tanteira de coisas que num distingui muito bem no ali, mas senti no coração que ele tava tentando me explicar que chegaria um tempo em que tanto o povo quanto a pova entenderiam que nosso sustento era a maior fonte de cura.

Pra dar arremate, disse ainda que com certeza tínhamos uma tanteira de hortaliças em meio as nossas milhares de plantas, bastava dar procura e experimento, num carecendo de ficar no arremedo das verduras lá das terras dele. Agradei por demais desses ditos e a partir daí sempre dei de aplicar este saber arriscando na começão das novidades que surgiam.

Sem mais delonga já fui despelando as varas do Lobo-lobô na intenção de levar pra dona Geralda, a cozinheira galega que cigarrava no disagero, mas que tinha uma mão abençoada na temperança das comidas e tava tratando de nóis só nos capricho. Num tardei no retorno, dando destaque que nosso achado deveria ser entregue a quem de direito no pronto, pra num embaçar a galinhada. Rumei cozinha adentro alertando dona Geralda do nosso achado, do qual ela se alegrou por demais. Enquanto ficamos por ali na esticação de conversa, ela já se apontou com a galinha despenada, me pedindo pra buscar lenha nos fundo do quintal pra dar sustento no fogo. Firmiano foi bater o arroz no pilão e quando terminei minha lida, a galinha já tava refogada, o arroz na segunda água, uma pratada de couve tava picadinha esperando a vez de entrar no fogo, enquanto ela explicava pacientemente a Seu Augusto que assim que a galinha estivesse no quase, ela iria colocar as raspas do Lobo-lobô no caldo e ele se ia engrossar, como de fato se deu. Demandou um tim pra tudo se aprontar e ficar disposto por riba do fogão a lenha. Aquilo foi uma festa e Seu Augusto comeu de se lamber os dedos.

Aquela pausa na viagem teve seu sucesso não só na cozinha, mas tamém na arrumação das plantas e bichos coletados, além do descanso dos animais, porém ainda havia um bom trecho a ser vencido. Por isso demos saída no despontar do dia seguinte e num gastou muito pra toparmos com o rio Jequitinhonha num trecho onde havia uma pequena aldeia numa área de baixio, dando ponto de travessia sem revés. Do outro lado do rio subimos um ladeirão gigante até chegar no pigogo daquela morração, passando por dentro de uma mata mais encorpada. Ali dava pra ver que as terras eram boas pra cultivo, mas no avanço pouco se demos de novo nos terrenos de pedras, gorgulho e areia branca trespassando tudo. Foi quando dei avistamento numa plantinha miúda, de caule avermelhado e folhas lanzudas, bem ásperas. Pronto, tava ali a Canela de perdiz (Croton antisyphiliticus), planta de muita valença pra uma tanteira de coisas e daí veio a faina de trazer tudo nos detalhes pra registro no caderninho de Seu Augusto.

Com o adjutório de uma finca fui instigando o gorgulho inté ver brotar a raiz avermelhada da Curraleira, ou Cocolera, nomes que ela tamém atende. Seu serventuá mais soberano é nas mordeduras de bicho mau, esse animalejo malino que se fica no arrasto e de tocaia esperando o vivente na distração. Ara! Aquilo num presta, pois perdi meu compadre Afonso pra uma jaracuçu há dois anos e num gostei. Mas tem de se tomar uma tanteira do chá loguinho depois da ofensa, senão num tem valença não. Ela tamém atiça uma mijação desmedida, o cabra tem de verter água no ligeiro, senão urina na roupa. Outra serventia é quando se apresenta a sífilis, doença marvada que vai arruinando o cabra nos tiquim, dando começo com uma feridinha besta e aquilo vai se alargando por dentro inté arruinar por inteiro se num der socorro. Quando ela dá de sinalizar aumentando as bouba das virilha, tem de se fazer uma muqueca com as folhas e as raízes trituradas curtidas um tiquim na água quente, além de tomar o chá. De todos os remédios que conheço pra debelar essa mazela, esse é dos mais influente.

Falava recostado no tronco de um pequizeiro, e no correr os olhos no entorno, distingui no rápido uma mancha escarlate miudamente disposta no limpo da areia, em meio a uns poucos tufos de capim nativo.

Aquilo se era uma das mais lindezas flores que eu conhecia e apreciava, o Paratudo (Gomphrena officinalis). Seu Augusto ficou meio abestado em vendo minha pessoinha cortando prosa pra sair no limbo do campo, e saiu atrás me perguntando: “Onde você está indo? Pra que mais ela vai servir?”. Num dei nem assunto de tão maravilhado que tava em se dar com ele assim no acanho simples dos campos e somente depois de me abaixar e apontar nosso novo achado é que soltei a fala: – Esse é o Paratudo, das maior belezura que o Criador já pôs neste mundo.

Planta é igualim roupa. Tem umas que a gente usa inté se acabá, mas tem outras que a gente refuga e nem corre os olhos nelas. Pois essa aqui é uma das que eu me acabo com ela, tenho até aflição no tirar do chão, na pena de arrancar essa boniteza. Essa planta tem o poder de curar quase todo tipo de moléstia que o vivente pode apresentar, mas no principal ela trabalha na depuração, limpando e fortalecendo o cabra por dentro, soltando os intestinos e consumando a provocação se tiver carência de limpar o bucho tamém. Pois olha que ela tamém tem grande valença nas mordedura de cobra de qualquer qualidade, trabalhando de pareia com a Canela de Perdiz, que tá se dando aqui do lado. Coisa de Deus mesmo, colocar as duas no rente uma da outra.

Seu Augusto deu trava no desenrolar do proseio, dizendo: “Por favor, vamos terminar com os proveitos da Canela de Perdiz e depois voltamos no Paratudo, está bem? Concordei de pronto, pois com ele num se podia descaprichar, né memo? Num tinha nem se acabado as notícias de uma, já tava se falando de outra. Daí dei retorno e completei o dizer da Canela de Perdiz, exaltando que as folhas secas transformadas em porme são colocadas sobre qualquer qualidade de ferimento, ajudando por demais na cicatrização. O chazinho dela é gostoso e ajuda a tirar essas doradas no corpo, febre e inté inflamação das doenças de barriga de mulher. Mas comparação: ela tamém é depurativa. Porém, o Paratudo é mumió nesse ponto, pois o cabra pode tá com o corpo todo pocado de pereba que em poucos dias de tomação do Paratudo aquilo se alisa que nem uma garrafa. Quando é febre dessas que vão e que vem, ele tamém dá jeito de se acabar com o incômodo. Mas no aproveito de que já tamos na falação do Paratudo, tem de se alembrar que essas caganeiras derivadas de cólica nos intestinos tudo se aresolve com ele. Essa planta é muito farturenta de resultados!

No sempre Seu Augusto ouvia tudo e parecia que anotava tudinho o que ouvia. Mas como ele era um homem das ciências, estudado por demais e deverasmente astucioso, eu tinha esperança de que tudo aquilo que vivíamos ali no simples da vida de sertão pudesse ele conferir lá no estrangeiro e dar validamento desse saber. Dei ciência a ele da minha angústia e ele assentiu, mas disse que isso seria um longo trabalho de muita pesquisa que consumiria muitos anos e envolveria muitas pessoas. Talvez nem ele mesmo iria ver os resultados desses estudos. Mas quem sabe, né mesmo? Finalizou nossa prosa, deixando essa esperança no ar e daí segui adiante ruminando esse acerto.

Assim que entramos num campo mais aberto o sol se escondeu, e se vimos num assentado com um misto de areia quase preta disposta num local bem mais encharcado já próximo dos baixios. Um vento gelado entrou pesado esfriando no mais e deu de incomodar. Mirando o ambiente ao derredor, dei tenência de que ali era endereço certo do Chá de Pedestre (Lippia pseudothea) ou Rosmaninho e fiquei no atento pra distinguir ela no longe. Num deu outra. Acabamos por dar entrada num campo fechado só dele e daí desci do animal na catação de um maço das varas ornadas com suas folhas duras, lixentas e muito carregada no cheiro. Convoquei Firmiano pra levantar um fogo, enquanto buscava água num regato que corria bem pertinho e no ligeiro távamos todos arrodeando o fogo, tomando um saboroso chá quentinho de suas folhas e roendo umas quitandas generosamente preparadas e cedidas pela galega Geralda. Aquilo foi uma grandeza só e Seu Augusto se admirou por demais da gostosura do sabor de bebida tão fina. Num tardou em perguntar as serventias e num economizei. Essa tal dava concerto em falta de sono e carrancismo, mas no apreparo de um xarope pra prevenção ou tratamento de gripe e tosse, era soberana. Podia-se inté juntá outras plantas, mas seu participamento era a base do resultado e tamém da gustação dada ao remédio. Esticamos a prosa por mais um tanto, mas távamos pertim de chegar na aldeia do Milho Verde e pro isso levantamos acampamento.

O chá deu disposição e leveza no grupo e pra dar descanso nos animais, se demos de caminhar seguindo a estrada, soltando a prosa no leve de assuntos desimportantes. Demos entrada na aldeia já no final da tarde, onde conseguimos nos arranchar num pequeno galpão próximo a uma fonte de águas cristalinas e frias. Eu tava muito agradecido a Seu Augusto por tanto conhecimento e sabedoria que ele havia passado e mostrado na prática durante nossa pequena jornada e queria cá com meus poucos saberes dar a ele um conforto.

Depois de todos se ajeitarem, dei saída na vila e consegui uma pequena bacia no empresto, na qual enchi de água fresca e voltei ao galpão, onde mais uma vez convoquei Firmiano pra botá fogo pra lavorá. Num demorou um tim pra ter a água no fervente, onde coloquei um bocado das folhas do Chá de Pedestre que havia trazido no prevenido e esperei dar curtição. Temperei o chá com um tiquim de água fria prá chegar no suportável, despejei na bacia, e no delicado pedi a Seu Augusto pra tirar as botas. Ele já tava na observância daquele arranjo, mas daí me olhou no espanto e assim meio na dúvida atendeu ao solicitado. Com cuidado coloquei seus pés na bacia enquanto lhe agradecia por tudo que távamos vivendo naquele pequeno trecho de sua longa viagem.

Essa é uma das serventias do Chá de Pedestre que ainda num tinha dado fala, que é dar conforto a quem tá com os pés estrompados pelas dificuldades dos caminhos que a vida nos leva e traz. Ele ficou deveras agradecido enquanto se largava no conforto de ter os pés quentes e relaxados. Tenho minha crença de que aquela foi uma boa noite de sono pra todos companheiros, pois depois cada qual tamém experimentou do agrado de ter os pés cuidados pelo Rosmaninho. No dia seguinte bem cedo ainda esperamos os finalmentes de uma pequena chuvada madrugadeira para depois seguir viagem quase que no escorrega e levanta pela ladeira do Mata Cavalo. Pouco mais adiante demos encontro pela segunda vez com o Rio Jequitinhonha, onde ele ainda é um riacho pouco, sem muita fartura dágua, derivado de ser pertim de sua cabeceira. Fomos deixando pra trás as pedras, nossas companheiras de viagem desde o Tijuco.

Seu Augusto, conhecedor do povo dos estrangeiros, me disse que teve um barão alemão, que vindo pras bandas das Minas Geraes deu o nome “Espinhaço” a essa morração de pedras que tavam ficando por ali. Daí em diante demos de entrar numa formação de mata cada vez mais fechada, com vinháticos gigantescos entremeados com embaúbas no bem alto e jacarandás cheios de elegância e porte, já na portaria da Vila do Príncipe.

Com essa sabência deu-se urgência no chegar, mas aí mais uma vez Seu Augusto me surpreendeu. Ele cismou de se embrenhar nas bordas do caminho na desculpa de buscação de alguma planta enflorada e por vezes o rumo se mostrava no incerto. Daí foi necessário dar entrada em antes dele e fazer o facão lamber o mato no ligeiro pra abrir o trecho, enquanto ele caminhava calmamente atrás, correndo os olhos naquele cipoal por riba da cabeça da gente. Seu rosto mostrava um encanto tal, que parecia inté que tava dentro de uma igreja matriz lá das terras dele. Esse encantamento aos cadinhos deu de me contaminar, e fiquei no perto pra desfrutar das descrições das planta nos detalhes que só ele via e entendia. Inté que eu fazia esforço, mas...

Pois foi só na borda da noite que demos entrada na Vila do Príncipe, debaixo de uma chuvada prazenteira, onde num foi difícil conseguir acolhimento. Enquanto os céus derretia-se em águas, o tempo de parada teve serventia pra dar arrumação naquela tanteira de coleta cuidadosamente disposta dentro das broacas, separando, amarrando, descartando e escrevendo, num sem-fim de detalhes e cuidados. Nessa faina gastou-se dois dias inté dar nossa retomada ao trilho, agora mais sombreado pelas matas e com o calçamento ora levantando poeira vermelha, ora afundando os pés numa lama preguenta.

Dei reparo que Seu Augusto tava mais tranquilo indesde que as águas deram de cair sobre a terra, aliviando o calor e mudando a cara da paisagem. A natureza agora dava mostragem de muita samambaia onde a mata tinha sido derrubada pelo fogo, o que lhe dava profundo desgosto. Mas tamém teve passagem por trechos de mata virgem, onde a paração pra cata das amostras era amiudada. No sempre ele usava uma lente pra dar aumento nas minúcias que se revelavam de forma que nunca mais vi, cortando cuidadosamente pedacico por pedacico, principalmente das flor. Ele nem dava ligança se tava esturricando no sol ou se encharcando na chuva, aquilo num tinha a menor das importâncias, pois o valoroso era anotar cada coisica examinada e recolhida.


Dava gosto e admiração ver ele nesse trabalho. E quando topávamos com algum vivente? - Ara! Aquilo se dava numa perguntação sem fim: “O caminho tá certo? O que vocês tão plantando por aqui? Quem são os donos das terras? Onde tem algum serviço de mineração sendo tocado?” Tinha gente que até refugava de tanta explicação requerida. As prosas levadas com o povo que nos hospedava nos caminhos, tinham sempre deslumbre e encantamento dos dois lados, todo o tempo ele dando palpitação no que plantar, como apurar as sementes, nos animais que melhor se dariam ali, sempre na guiança do que poderia melhorar a vida do colono perdido no meio daquele mundão de meu Deus. E assim seguimos subindo e descendo morro, até que ao final de um dia carregado de mormaço despontou o pequeno arraial de Conceição. Tinha chegado a hora de nossa apartação.

Depois de um longo abraço, nos despedimos e fiquei na certeza de que essa foi uma das maiores experiências que tive em vida. Agradeci por demais a companhia e a distinção dele pra com minha pessoinha no trato com as plantas medicinais e no ensino de que a natureza é o Criador manifesto na terra e que Ele entrega nos nossos braços, mãos e coração, a tarefa de cuidar de sua obra.