A Noiva do Sertão

August 21, 2017

A Noiva do Sertão

 

       O período da seca no sertão revela sua beleza através de detalhes observados debaixo das folhas secas, galhos retorcidos e muita, mas muita poeira mesmo. Há alguns anos atrás, durante umas voltas que dei na região de Curvelo, pude comprovar a desolação que esta estação impõe ao cerrado. Mas debaixo dessa imensa capa avermelhada de pó, de repentemente dei reparo num pé de Cagaita (Eugenia dysenterica) e fiquei pasmo com tamanha formosura. A árvore tava completamente forrada de delicadíssimas flores brancas, como se um vestido de noiva houvesse despencado dos azulados dos céus em meio ao sertão, só pro capricho de enfeitar aquela desoladora secura.

       Conversando aqui e acolá fiquei sabendo que ela é uma árvore melífera e suas cascas são utilizadas há tempos na curtição de couro. Atualmente a polpa dos frutos tem sido processada na intenção de se preparar doces, mousse, licor, compotas, geleias, sucos e sorvetes, podendo ser armazenada por até um ano sem perder sabor ou qualidade. Na região do Alto Jequitinhonha tive a oportunidade de experimentar um delicioso vinagre preparado a partir da fermentação natural dos frutos e se dei muito com ele.

       Ano passado deu-se o acontecido de me embrenhar no sertão neste mesmo período de seca com o amigo e raizeiro, Chico da Mata. Quando a sede apertou, topamos com uma Cagaiteira carregada de frutos e um monte deles mais amadurados tavam espalhados pelo chão. Não me fiz de rogado e deitei o queixo me achando o feliz. Chico me olhava de soslaio, rindo disfarçado e não demorou muito pra entender o porquê. Devorei afoitamente os frutos aquecidos e fermentados pelo sol escaldante e levei toda aquela calorama pras entranhas. Deu-se início a um suadô desabusado e me curvei em cólicas, que somente foram desembaraçadas depois que me aliviei por trás de uma moita de Pinha-de-rato. Experiência desagradável que relato para que outros desavisados não passem pela mesma situação.

       Chico ficou sentado mais afastado embaixo da sombra dum pequizeiro e pacientemente enrolou um cigarro de paia, vez por outra soltando uma risada enquanto eu me acabava. De longe, ouvi ele resmungar baixinho que “a cagaita tava numa quentura doida e muito amadurada. Verdolenga dá caganera não, dá é um suco muito bão”.

       Curioso é que suas folhas produzem efeito contrário, atuando na contenção dos desarranjos e lá pelos lados do Rio Urucuia, ouvi indicação pra baixar o nível de açúcar no sangue, além de sê vermífuga. Quando o caso é o trato de uma ferida, a recomendação é machucar as folhas e aplicar, pois elas têm boa atividade cicatrizante. Pouco tempo atrás andei lá pras bandas do Rio Pandeiros e uma moradora local, D. Santa, tava colhendo somente os brotos bem novinhos e avermelhados. Perguntada qual a serventia, me respondeu: “prá queimação na barriga é um santo-remédio. Tem que amassá e butá numa água fria, tumando os tiquim”. Já as flores são indicadas no trato dos rins, da bexiga e o chá das cascas ajudam na regulagem da menstruação.     

        Dá pra se fazer fácil uma geleia das mais gostosa com os frutos da Cagaiteira. Junte meio quilo deles, lave bem e coloque pra cozinhar num litro de água. Depois de bem cozidos, deixe esfriar e passe numa peneira fina. Meça as xícaras de polpa obtidas e junte quantidade igual de açúcar ou inté um pouco menos, levando ao fogo até dar ponto de geleia. Pra saber qual é o ponto certo, coloque um pouco num pires, molhe o dedo polegar e esfregue no dedo indicador. No afastamento um do outro, dê reparo se vai formar um fio mole. Daí tá no ponto. Inté!

 

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