Prosa de Raizeiro

July 7, 2017

 

         Passei uma semana em Morro da Garça tomando ciência das plantas da região e dos muitos raizeiros e benzedores home e muié que vivem ali. Me arranchei num antigo casarão na praça principal, que já serviu de pensão nos tempos de dona Zoé e Pretinha (que Deus as tenha). Mas as muriçoca me tocaram de lá depois da primeira noite. Num me alembro de ter tomado tanta ferrada numa noite só... Prá tentar melhorar o ânimo no dia seguinte, fui em busca da benzeção de dona Maria Xonada, mulher de alma leve, que se parece mais um beija-flor de tantas delicadezas. Proseamos uma tanteira sobre as plantas, a vida e o criador. Saí de lá com a alma leve, apesar calor alucinante.

        Os dias foram se passando e nas últimas horinhas, deu-se de formar uma roda de prosa com vários personagens locais dotados de grande sabedoria. Um deles, Geraldo de Lúcia, num esquentou o lugar, pois ficou só peruano no entorno. De pronto ele soltou uma receita infalível prá abrandar cólica de recém-nascido: basta a mãe espremer um pouco de seu leite por riba da barriguinha do bebê e massagear. De acordo com testemunhagem, num demora um tim. Outro que falou bonito foi Tico Brito, homem dotado de grande fé e forte poder de benzeção. Os casos de depressão tratados por ele invariavelmente tem indicação pro vivente mudar a cama de lugar e virar o colchão, além de caçar um jeito de sair prá dança, conta umas histórias, toma um gulinho, arrumar um violão e cantá, jogar uma água fria no lombo prá arejar a alma. “Nóis viemo prá cá prá sê feliz, Deus num tem tristeza... e pode escrevinhar que a fé cura, mas a cisma mata!"

          Já o Tonho do Dino contou um caso de ofensa de cobra, dizendo que “a melhor benzeção pra isso é soro na veia lá no hospitar. Uma jaraquinha daquelas miudica picou meu pé e quase que eu fui...” Mas ficou a recomendação de que "o cabra ofendido de bicho mau num pode pular cerca e nem cruzá corgo. Aquilo o veneno se esparrama num átimo." A certa altura da prosa, todos os raizeiros tiraram do bolso uma latinha de rapé e se seguiu uma sessão infindável de cheiração e espirro um atrás do outro.

        Seu Joaquim, com o rosto sereno a tudo ouviu sem dar palpite, mas quando questionado, discorreu em fala mansa e compassada a fazeção do rapé que trata das sinusites e rinites: "premero se dá uma torrada nas sementes de girassol, tirando as cascas. Depois se elege outras plantas, que pode sê imburana, hortelã, eucalipto, alecrim, essas planta de cheiro. Todas tem que tá bem sequinha e levemente torradas inhantes de se leva no pilão pra fazê o pó. A mistura pode sê variada, aumentando um tanto dessa aqui, diminuindo outra acolá, ficando a gosto do freguês".

          Nessa vivência das mais prazerosas, outra vez vi que sabedoria e saúde sempre andam de mãos dadas. Inté mais vê!

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