Chumbo no Bororó


Dia desses, esbarrei lá nos barrados da Serra Mineira e se dei numa comunidade por nome de Cafundó. É um amontoadinho de casas com vielas empoeiradas e um povo bão, onde conheci Pedro Souza, personagem dos mais interessantes. Dotado de voz anasalada e arrastada, ele ia debulhando conversas soltas e contação de causos numa roda com outros companheiros de catação de plantas. Os camarada de faina, vez por outra enriqueciam os contados de detalhes deslembrados por seu Pedro e assim ouvi essa história que agora divido com vocês.

__Teve um tempo aqui, disse seu Pedro, que morou um sujeito assim esquisito, maniado no roubo de galinha e o povo deu de se armar pra combate do larápio. Maria Viúva, mulher séria e trabalhadeira, fadigada com tanta roubalheira no seu galinheiro, se enfezou e acabou por arrumar uma garrucha porveira, daquelas antiga que se carregava pela boca. Por premeiro deu um bocado de tiro nos tronco de bananeira para ganhar treino e numa noite de minguante se botou em espera nas beira do galinheiro. Lá pelas tantas da noite, as bichinhas deram sinal de mexida e ela num esperou muito e logo correu o dedo no gatilho. No pipoco da garrucha o ladino saiu vazado. E foi assim que Tião de Arlita teve uma banda da popa da bunda prejudicada pelo tiro, que esparrodou aquela chuva de pórva.

Seu Pedro continuou a narrativa enquanto a gente descansava da fadiga do sol a pino debaixo de um enorme pequizeiro. "Pois no raiá do dia o larápio me procurô buscano recurso pra uma queixa antiga de amorróida. Nem desconfiei da encrenca e dei-lhe umas cascas de Mutamba (Guazuma ulmifolia) para tomar e banhar ofensa de tamanho desconforto. O tratamento consta de ponhá nove pedaço da casca nuns 2 litros de água fervente, tomá três golos e depois fazer um banho nas partes com o restante. Isso no premero dia, e já no outro se usa só oito pedaço e no outro só sete e assim por diante, até chega num pedaço só. Notei outra moléstia nele não, e ele se foi. Eu num tinha nem acabado de armoçá, quando me aparece a muié dele, dona Arlita, com converseiro arrodeado, até que muito avexada contou o sucedido. Bão, aí mudei a receita, pois o veneno do chumbo fica garrado nas carne do vivente e a dor é muita".

Saí de pronto em busca de casca do Pacari (Lafoensia pacari) e arranquei umas lascas arrumada. Expriquei que ele devia encher uma gamela de água, ponhá uns pedaço da casca e com as lasca maió, era prá bater na água do mermo jeito que se faz omeleta. Aquilo dá uma espuma sem igual e é essa espuma que se deva banhá a popa cheia de chumbo. No começo a espuma escorre pretinha e aos pouco vai ficando mais alvinha, já dando ponto de que o veneno do chumbo se foi. Pronto, assim ele fez e assim ele sarou. Num delatou muito e esse tal de Tião de dona Arlita se mudou daqui com a famiagem toda, acho que de vergonha...

Pois tem muita gente graúda por aí necessitada de uma chumbada no bororó, né mesmo? Inté mais vê!

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