Gonçalo Alves

March 20, 2017

 

          O sol já se ia alto e o suor escorria feito riacho pelo congote, juntando a camisa no corpo e sungando as calças já úmidas na cinta. Guardei o facão na bainha e fiquei mirando os forros do mundo, azulado nos fundo ramiado com as penugens de nuvens aqui e acolá. Fadiga muita nessa correção de trecho na buscação de remédios. Ufh! Inda bem que o embornal já tava cheio e a missão dando ponto de cumprida. Fiquei me alembrando de como se dei com a planta que havia acabado de colher, o Gonçalo Alves, (Astronium fraxinifolium).

          Pra começo de prosa logo me espantei com essa planta que tem nome e sobrenome de gente. Como assim? De onde veio isso? Inté hoje num fiquei sabendo a origem e se alguém souber me escreve contando, eu agradeço por demais. De princípio me embaraçava um pouco na hora de diferençá ela de outra, mas com passar dos anos fui criando intimidade com as árvores do cerrado. Daí descobri seu cheiro, que é muito aparentado com manga e num demorou um tim pra botá reparo no empareado das folhas. Por fim peguei o jeitão dela e hoje gasta só bate o olho e já identifico.

          Serventia muita ela tem e tamém gastou tempo pra tomar ciência de tudo. De premero era só uso das cascas no xarope lambedor e depois foi se desdobrando. Utilidade boa me contou um militar aposentado lá das bandas de Curvelo, que teve a mulher entrevada na cama sem consentimento pra movimentação. Dor montada nas juntas, ela era o retrato do sofrimento. Remédio sem quantidade e ela já enojada de tanto médico dano palpite e solução nenhuma. Certo dia ele se alembrou do avô apregoando as qualidades do Gonçalo e foi pro cerrado buscar as entrecascas. Despois colocou numa garrafa de vinho, deixou uns dias antes coar e a mulher deu de tomar um cálice pela manhã e outro mais na boca da noite. Pois bem, passou-se três meses a mulher sarou-se completamente, e inté hoje nem registro tem das doradas antigas.

       Fama mesmo ela alcançou quando foi passear lá na estação espacial levado pelo astronauta Marcos Pontes, aquele cabra simpático de cabeça branca que tava toda hora na TV. Ele fez uma experiência, plantando sementes de Gonçalo lá nas alturas e tamém aqui no chão e comprovou que as semeadas lá germinaram mais rápido. Que coisa né? Inté o Gonçalo já teve até no espaço e nóis aqui ainda rastejando...

          Mas as aventuras dessa gente/planta num para aí não. Suas cascas tem paladar bem apertento e ajuda se o caso for diarreia. O banho alivia muito a queimação das hemorroidas e as folhas secas transformadas em pó, são polvilhadas nas feridas com ótimos resultados cicatrizantes. Com se viu, é uma tanteira de utilidade numa pessoinha só. Inté breve!

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