Cavalinha, a planta do brejo

November 12, 2016

 

          A chuva fina e persistente que caia há horas tinha transformado minhas roupas numa sopa mole e fria. Lampião, animal dócil e de bom passo não esmurecia com a fadiga de subir e descer serras por entre caminhos estreitos, muitos deles transformados em pequenas lagoas e brejos pegajosos. O vento frio soprava desde o início da manhã, trazendo frio e aumentando a sensação de cansaço. Ao descer cautelosamente por uma ladeira, reconheci o local passado muitas vezes e soube que logo mais a frente iríamos atravessar um pequeno riacho por nome “Borrachudo”. Mas assim que se acabou o campo e entramos na mata ciliar, se demos de tope com o rio se esparramando por tudo que é lado, parecendo mais um mar de água barrenta. Chico da Mata que lá se ia mais a frente, estancou seu alazão fogoso ainda inteiro, me encarou e disse:

          __“Num vai dar travessia...” e imediatamente guiou seu animal por uma trilha estreita e disfarçada que acompanhava aquele mundo dágua.  Num tardou nadica pra divisar uma passagem onde seria possível atravessar com segurança e Chico chamou o animal na espora, lançando-se por riba do modesto oceano a sua frente. Sem muita escolha, fustiguei Lampião e aos poucos ele foi dando de se afundar naquela água barrenta, até alcançar a cabeceira da sela. Atento, soltei o animal pra ele nadar na larga e ainda assim consegui ver com o canto dos olhos uma verdadeira mata de Cavalinha (Equisetum sp) num baixio adiante. Já fui chegando doutro lado tomando rumo prá buscação de planta medicinal tão vantajosa, ultimamente difícil de ser achada.

Chico ficou pendurado na decisão de me acompanhar ou dar retorno à sua casa. Ainda ouvi ele suspirar pesadamente em cima da sela enquanto resmungava:

          __ Mas prá onde esse fiapo de gente pensa que vai... Aqui só tem água, moço! gritou ele antes de sair na minha perseguição. Fustiguei Lampião novamente no rumo das águas e ele mais uma vez aceitou o comando docilmente, estacando ao lado de uma das moitas de Cavalinha. De cima do animal, desembainhei o facão e enquanto uma mão cortava, a outra enfiava os maços dentro de um saco amarrado na sela. Em pouco tempo terminei a empreita e vi Chico pacientemente esperando a finalização da tarefa.

          __ “Ocê topou-se logo com essa danada. Tamo mermo na percisão dela pra combate das inframação das bexigas, areia nos rins e inté aquelas dorada na hora da mijação. Muié é que apresenta muito disso.” Enquanto tomávamos lentamente o caminho de casa, concordei com ele e comentei das boas experiências sobre os usos da Cavalinha na criançada, que de repentemente davam de soltar sangue pelas ventas ou das moças que apresentavam sangramento desagerado no ciclo da lua. Pois Chico lembrou-se ainda de também usá-la nas aftas, fazendo o pó e aplicando diretamente sobre as feridas. Já em casa, um banho quente e um caldo de mandioca fumegante espantou o frio e deu conforto prum sono reparador. Inté breve!

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